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Um refúgio chamado Pedrinhas

qui, 21/12/2017 - 09:15 -- Leila Pinho
Créditos: 
Foto: Gianini Coelho
praia das pedrinhas em rio das ostras na divisa com macaé

Partindo da Lagoa de Imboassica, em Macaé, andando na areia em direção ao Mar do Norte, ficam pra trás os prédios, o barulho, a multidão e se aproxima um lugar que até parece um paraíso perdido. Se você segue pelas trilhas, bem no meio da restinga, vai sentir o perfume da vegetação, se surpreender com o sabiá da praia, com as paisagens reveladas conforme o desenvolvimento do caminhar e se deliciar com as pitangas, o mandacaru (fruto que brota do cacto) e quem sabe até goiabas, ou maracujás do mato. O trajeto é sensorial, mas pode também ser espiritual, uma forma de conexão fina entre a alma e a natureza. Se durante a caminhada tudo ao redor é vegetação, ao final dela há uma grande surpresa, o impacto visual do paraíso. É quando o descortinar de verdes cede lugar para o brilho intenso do mar, o calor da areia e as águas mais calmas, cheias de pedras. Chegamos à Praia das Pedrinhas.

bell e max na praia das pedrinhas em rio das ostras

A chef de cozinha Bell Mellsert, 35 anos, visita o local com frequência e fala de lá com muito carinho. As recordações mais remotas que ela tem das Pedrinhas vêm da infância, quando seu pai a levava pra passear. Bell conta sobre a “colcha de pedrinhas” que se formava na areia cheia de restos de conchas quebradas e de como se sentia feliz. “É meu refúgio. Tenho essa lembrança carinhosa e até hoje, quando estou nas Pedrinhas, sinto a mesma paz de antes”, fala.

 

Além de toda a beleza natural, Bell tem vários outros motivos para amar o refúgio. “Às vezes, vou pela areia de trotezinho, mas se o sol estiver muito forte, vou pela trilha e, quando eu quero ver a lagoa, pego a trilha alta. Na trilha do mato podemos experimentar vários sabores pelo caminho. Tem pimenta rosa, maracujá doce, pitanga, mandacaru branco e rosa e tem também um fruto pequenininho azedinho que é uma delícia”, conta. Os amigos e os encontros com comidas preparadas do jeito mais simples e mais fraterno é outro forte motivo de amor pelo lugar. Bell leva vários temperos para a praia e prepara peixes, mariscos, etc., tudo lá mesmo, de forma bem rústica e improvisada. Os amigos, a família dela, todos comem na mesma panela e, às vezes, as conchas servem de colher. Eles compartilham a comida, assim como o prazer de estarem juntos e o amor e respeito pelo lugar. “Este ano, comemorei meu aniversário lá, fizemos camarão VG e foi bom pra caramba”, recorda.

pessoas na praia sentadas na areia

Já o petroleiro aposentado Carlos Alberto Lobo, 55 anos, tem a Praia das Pedrinhas como local ideal para refletir, há mais de 20 anos. Quando ele se mudou para os Cavaleiros, há 24 anos, não existia academia perto de casa e, como Carlos gostava de atividade ao ar livre, começou a caminhar e correr até as Pedrinhas. Com o tempo, isso virou um hábito, que se mantém até hoje. “O meu trabalho era muito estressante. Então, sábado e domingo ia às Pedrinhas pra “desestressar” e refletir, era minha válvula de escape. Até hoje, vou pra agradecer e pensar na vida. Chegando lá, parece que descarreguei tudo e volto pra casa zerado”, comenta Carlos.

 

Atualmente, ele vai ao local cerca de três vezes por semana e não se cansa de admirar a paisagem e curtir o sossego. “É perfeito o verde da mata com o mar. Às vezes, vejo tartaruga e tem época que até baleia. É tudo muito próximo, parece até uma ilha. Por não ter acesso fácil pra veículos, não tem ‘muvuca’, nem falatório, a gente ouve o barulho dos pássaros e do mar. E tem as piscinas que são ótimas, com água mais calma por causa da enseada”, relata.

 

Bell e Carlos não se conhecem pessoalmente, mas tem uma pessoa que os dois têm como referência quando o assunto é Praia das Pedrinhas: Max Schimdt. Há cerca de 5 anos, Max vai todos os dias para as Pedrinhas, onde tem uma barraca de venda de bebidas, ponto de apoio, vendendo água, cerveja e refrigerante aos visitantes. Max é muito respeitado pelas pessoas que frequentam o lugar, ele é quase um personagem da Praia das Pedrinhas.

 

Com cabelos longos, pele queimada de sol e muita simplicidade, ele mostra todo seu amor pelo lugar, através das atitudes. Max cuida da preservação do meio ambiente, preza pelo convívio familiar e pacífico, e é visto por muitos como uma espécie de xerife, aquele que coloca ordem no lugar. Ao receber a nossa equipe de reportagem, Max nos levou a um ponto mais alto da praia onde é possível avistar toda a faixa de areia desde a Praia do Pecado até o Mar do Norte, em Rio das Ostras. Ali mesmo, ele contou um pouco sobre a relação dele com o lugar e o mar.

 

Max é neto de pescador e o pai dele também pescava. Segundo ele conta, a área da restinga da Praia das Pedrinhas já abrigou uma vila de pescadores, há cerca de 50 anos. Max não fugiu à paixão familiar e também adora pescar. “Aqui nas Pedrinhas, já peguei tainha, robalo e até uma cavala de 20kg. No verão, é a melhor época para pescar porque a água está clarinha”, fala, como pescador de pesca submarina. Ele se orgulha de dizer que a Praia das Pedrinhas é uma das mais limpas da região.

praia das pedrinhas

Na barraca dele, um aviso já deixa bem claro a regra da praia: “Você é bem-vindo, o seu lixo não”.  Numa ocasião, um grupo de pessoas com carro estava deixando a praia largando um saco de lixo na areia e Max não hesitou em gritar, chamando a atenção para que levassem o lixo embora. Há pouco tempo, bem pertinho do canal extravasor, Max, replantou, junto com amigos, a vegetação da restinga numa área que tinha sido degradada, com uma planta rasteira típica, cactos e amendoeira. “Minha casa pode ser uma bagunça, mas minha praia não”, diz.

 

Embora esteja bem perto de Macaé, a Praia das Pedrinhas pertence à Rio das Ostras e fica numa Unidade de Conservação chamada de Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) de Itapebussus, conforme estabelece a Lei 9985/2000, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza. Para chegar até as Pedrinhas há quatro opções: ir caminhando pela faixa de areia ou pela trilhas, de bike pela trilha do morro, saindo da Lagoa de Imboassica em Macaé ou de carro 4 x 4, por Rio das Ostras. Tanto pelas trilhas como pela areia, o tempo aproximado de caminhada é de 25 minutos e o protetor solar é indispensável. Para quem opta por ir pela trilha, o ideal é estar em grupo, já que o local é deserto. Para quem vai passar o dia na praia, uma boa dica é levar lanches e bebidas, pois a praia não tem quiosque e o único ponto de venda de bebida é a barraca do Max.

 

Preservação do paraíso

 

Segundo explica o biólogo Guilherme Sardemberg, a restinga da Praia das Pedrinhas é uma vegetação típica da Mata Atlântica, com características de plantas baixas e que resistem à alta incidência solar, ventos constantes e escassez de água.

 

 

No dia em que recebeu nossa equipe, Guilherme mostrou, a partir de um programa do Google que possui imagens aéreas do entorno da Praia da Pedrinhas, como a vegetação era há aproximadamente 10 anos e como ficou com o passar dos anos. A maior parte está preservada, mas há pontos prejudicados, ambientalmente. A degradação é visível em algumas partes como na restinga que fica mais perto da Lagoa de Imboassica (pra quem vai de Macaé para as Pedrinhas – pela areia). Onde antes havia vegetação, hoje há areia. As várias trilhas na restinga também são rastros de destruição. Guilherme ressalta que principalmente os pneus, de carro ou motos, vão degradando o meio ambiente.

Guilherme na restinga da lagoa de imboassica

“Sou contra o acesso às Pedrinhas com veículo automotor, principalmente por cima da restinga. Isso não deveria ser feito naquele local porque o impacto ambiental é negativo. O carro acaba com a vegetação, emite CO2 e ruídos que podem assustar os animais”, pontua Guilherme.

 

Desde 2009, o acesso de carros à Praia das Pedrinhas, saindo de Macaé, foi proibido pelo Ministério Público. Perto dos quiosques na Lagoa de Imboassica, há uma cancela, impedindo o tráfego. Porém, os carros continuam acessando a praia, já que por Rio das Ostras não há interdição.

 

Guilherme acredita que a conscientização das pessoas é um dos caminhos para preservar o local. Bell gosta do fato de serem poucos, os frequentadores. Para ela, o acesso mais difícil à praia influencia na preservação. Max prefere que continue assim, do jeito que hoje está. “Tinha que ficar assim pra sempre: a praia mais vazia, muito limpa, com a maior calma e tranquilidade”, profetiza. 

 

Para quem parte para as Pedrinhas, abuse do filtro solar, capriche na bolsa térmica e pegue a barraca. Desfrute do paraíso e não se esqueça de levar o lixo embora. Boa caminhada e boa praia!

Comentários

Enviado por Marcos Tudesco em
Linda matéria. a praia das Pedrinhas ainda é uma referência em se tratando de beleza natural.

Enviado por Divercidades em
Obrigado Marcos. É mesmo uma referência e o bom que está bem pertinho da gente. É só curtir e cuidar.

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