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Paixão por fusca

ter, 19/07/2016 - 11:52 -- Júnior Costa
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Fotos Alle Tavares
fuscas

Käfer, Coccinelle, Escarabajo, Maggiolino, Beetle, Bug, Huevito, Dak Dak, mas conhecidoS mesmo pelos brasileiros pelo nome de Fusca. Uma das maiores paixões nacionais, o carro continua sendo o sonho de consumo de muitos amantes do motor refrigerado a ar. Outros acham o projeto ultrapassado, relíquia, que já teve o seu momento. Os “fuscamaníacos”, os apaixonados pelo carrinho, se defendem com dados impressionantes. É o quarto carro mais vendido em todo o mundo, com mais de 23,5 milhões de unidades, segundo atesta a pesquisa realizada pela Wall Street Cheat Sheet. Foi o carro que ficou mais tempo no mercado sendo comercializado, de 1936 a 2003, quando o último exemplar foi fabricado no México, conforme informações do site Fusca Clube Brasil.

O projeto, encomendado por Hitler para ser o carro popular da Alemanha, foi muito mais além. Rompeu barreiras e fronteiras, e deixou muita marca de luxo para trás ao longo da história. O nome inicial, VolksWagen – carro popular, na tradução do alemão para o português -, mostra que o objetivo foi alcançado e o carrinho de 86 anos – considerando o primeiro projeto apresentado em 1930 até o último criado em 2003 -, continua arrebatando corações.

Não é preciso pegar a estrada e rodar muito para achar histórias de loucos pelo “Fusquinha”, assim carinhosamente chamado pelos brasileiros. O empresário Antônio Diomedes Paes, o Toninho Diomedes, tem cinco exemplares. Todos possuem nomes, histórias, notas fiscais e um pedaço do coração do dono.

“Meu primeiro Fusca tive quando passei no vestibular. Estava um pouco machucado, mas convenci meu pai de comprar, levei para a concessionária do meu tio, onde frequentava desde menino, e consertei. Lembro muito dele. Um Fusca 1971, azul diamante. Fiquei com ele dois anos e rodou bastante comigo. Viajamos muito”, lembrou Toninho.

Entre um Fusca e outro, uma história aqui e outra lá. Subir até o Pico da  Bandeira, atolar no caminho, remover os cabos do alternador para não ser roubado, passar dois dias limpando o carro com sabão de coco e por aí vai.

“Meu primeiro carro estava sujo por dentro porque ficou muito tempo guardado. Passei dois dias limpando o interior, o forro do teto, com sabão de coco. O carro ficou limpinho e todos achavam que era novo. Não tinha um dia sequer que pegava o carro cedo e não tivesse um bilhetinho com número de telefone e proposta para vender. Meu segundo Fusca, um 1977 bege, ficou comigo por três anos. Fui com ele ao Pico da Bandeira. Um amigo atolou o carro na estrada e tivemos que descer até o início da estrada para depois subir de novo. Mas antes, lavei o carro todinho com uma mangueira. Todos os meus carros têm boas histórias comigo”, contou.

Sem muitas aventuras, os carros agora são para dar pequenos passeios e ir às exposições. Mas não há nada do Fusca que se pergunte a Toninho que não seja respondido de imediato. A paixão é tamanha que ele possui em casa um fusquinha há 30 anos, em ótimas condições e todo restaurado. Esse fica exposto em eventos de carros da época, refrigerados a ar. Outro modelo ele guarda com carinho, pois será passado ao filho quando completar 15 anos.miniaturas de fusca

“Tenho um Fusca que está há 15 anos sem rodar. Estou esperando meu filho, que hoje tem 10 anos, crescer um pouco mais, porque vamos restaurá-lo juntos. Quero passar esse amor a ele, mostrar a ele o que aprendi”, revela o “fuscamaníaco”.

“Fusca é um ícone mundial. Quarto mais vendido no mundo, terceiro mais vendido no Brasil. Carro que ficou mais tempo em produção. É o único carro que tem um Dia Mundial (dia 26 de junho) e um Dia Nacional (20 de janeiro). Com certeza é uma paixão nacional”, concluiu Toninho.

Outro aficionado pelo carro é Tiago Gonçalves. Há dois anos ele dedica parte da vida ao Fusca 1969. E não adianta pedir para dar uma volta, nem mesmo tentar tirar o carro da garagem. O carro, ou melhor, o filho, só sai de casa sob o comando dele e não tem conversa.

“O Fusca faz parte da família. Não vendo, não dou, não empresto, não deixo ninguém sequer tirar da garagem. Poucas pessoas ousam pegar emprestado o Fusca de um amigo. Cada um sabe o ciúme que se tem do carro. A relação é de filho, é um membro da família”, explicou.família no fusca

Tiago contou que passou três anos atrás do que ele chama de “o Fusca”. O primeiro a ser comunicado da nova aquisição foi o pai, com quem aprendeu a gostar do veículo. “Quando tinha 7 anos, meu pai precisou vender o Fusca dele. Gostava muito daquele carro, mas não teve jeito. Ele vendeu porque minha irmã, com 4 anos, precisou fazer uma cirurgia. A partir disso, coloquei na cabeça que um dia teria o meu Fusca. Depois de três anos, consegui achar o meu, fui até o interior de São Paulo para buscá-lo e é meu xodó até hoje”, lembrou Tiago que depois completou usando uma citação clássica sobre o fusquinha: “carros comuns percorrem quilômetros, Fuscas percorrem gerações”.

 

Paixão e respeito dos jovens

 

Engana-se quem pensa que só coroa tem um Fusca na garagem. O tradicional gesto de lavar toda a semana e ficar encerando o carrinho também é repetido por muito adolescente. Nas oficinas e nos sites de compra e venda pela internet há muitos jovens interessados.

Nos grupos que se encontram semanalmente em muitos pontos do país, também é possível encontrá-los. Em Macaé e Rio das Ostras, não é diferente. Toda quarta-feira os “fuscamaníacos” do grupo Rachadores Aircooled se encontram no posto de combustível no Mar do Norte, em Rio das Ostras.

mulher com fuscaLuana Dantas é uma “fuscamaníaca” da nova geração. Ela tem 24 anos e um ciúme ferrenho do Chokito, como batizou o Fusca 1976, com motor 1.300-L, de cor marrom. A paixão pelo possante começou na contramão da maioria, sem influências. Foi participando de feiras, exposições e vendo um aqui e outro ali que tudo começou, segundo ela.

“Durante viagens a trabalho, acabei indo em alguns encontros de carros. A maioria por coincidência. Ia passear pela cidade e acabava descobrindo encontros em praças, bairros e me apaixonei. Hoje, não tenho como descrever o meu carinho com o ‘Chokito’, nome que foi preservado desde o primeiro dono”, confessou Luana.

painel do fuscaQuando a afeição e amor pelo carro são grandes, não há limites entre a emoção e a razão. Luana deixa claro que conversa com o Chokito. “Converso muito com ele, quando estamos nós dois falo ‘Chokito, você me faz passar cada aventura’. Quando o lavo é o melhor momento, presto atenção em cada detalhe nele. Todo dia tenho a certeza que não podemos nos separar. Não o venderia por dinheiro nenhum. Olha que estamos passando por um momento de crise no Brasil, mas me separar dele, será minha última opção. Ninguém o dirige de jeito nenhum e quando encostam, já dou uma esbravejada. O máximo que deixo é ligar para esquentar o motor”, relata.

Histórias engraçadas envolvendo Luana e Chokito é o que não falta. Uma ela conta aos risos só de lembrar. Envolveu quase a vizinhança inteira só para não faltar a um encontro do grupo que participa. “Uma vez, lavei o carro e deixei brilhando. Quando fui sair para ir ao encontro, ele não pegava por nada. Foi um empurra daqui, empurra dali e nada dele pegar. Tentava dar tranco e nada. Já não aguentava mais empurrar e foi aí que saí pela rua pedindo ajuda. No final, quando reparei, tinham vários vizinhos empurrando o Chokito e ele não pegou. O máximo que consegui foi levá-lo de volta para casa, e empurrando”, conta.

 

Curiosidades sobre o fusca

 

fuscaQuando Hitler encomendou o carro a Ferdinand Porsche ele fez algumas exigências, segundo conta a história. O objetivo era torná-lo o carro do povo, como já explicado antes. Entre as exigências, era que o veículo deveria transportar dois adultos na frente e três crianças no banco de trás, como eram compostas as famílias alemãs naquela época.

Outra exigência é que o carro não deveria custar mais que uma motocicleta e o consumo de combustível não deveria ser menor que 13 km/litro, devido a puca disponibilidade de gasolina na época. Porsche, então, revolucionou o mercado e apresentou um motor refrigerado a ar, como a encomenda exigia, pois as garagens não possuíam aquecedores. Além disso, entregou o primeiro projeto à frente dos carros da época, com quatro marchas para frente e uma de ré.

O primeiro protótipo foi concluído em 1930, mas foi lançado oficialmente por Ferdinand Porsche em 1935. Em 1939, por conta da Segunda Guerra Mundial, algumas versões militares foram construídas. Passada a guerra e com o país quase destruído, alguns modelos foram resgatados e remontados. Daí pra frente, o Volkswagen passou a ser usado como ambulância, correio e outros serviços de primeira necessidade. Só em 1949, o Fusca chegou ao mercado americano, porém poucas unidades foram vendidas na época, porque o povo rejeitava produtos alemães logo no pós-guerra.

O Fusca só chegou ao Brasil em 1950. Os 30 primeiros ficaram expostos no Porto de Santos, em São Paulo. O sucesso foi imediato e logo surgiram interessados em comprar a novidade. A expectativa, na época, era vender cada um por 20 mil cruzeiros, mas foram vendidos a 60 mil, cada unidade.

Em 1953, Getúlio Vargas proibiu a importação de carros montados. A partir daí, o Fusca chegava desmontado em caixas e era montado no Brasil. Dez anos depois, ele passa a ser todo fabricado no Brasil. A última série lançada no país foi em 1996, o chamado de “Série Ouro”. Ao todo, nos dois períodos de fabricação do carro no Brasil, foram comercializadas 3 milhões de unidades.

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