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Gisele Muniz

ter, 15/10/2013 - 10:40 -- Leila Pinho
Créditos: 
Foto Portal Divercidades
Gisele Muniz no Solar dos Mellos em Macaé

Macaense, formada em história e com trajetória profissional que tece uma íntima relação entre as áreas de educação e de patrimônio histórico, Gisele Muniz sonha com uma Macaé que reconheça seus arquivos e sua memória. Há pouco mais de nove meses no cargo de vice-presidente de acervo e patrimônio histórico de Macaé, ela diz que o município enfrenta o grande desafio de dar sentido aos patrimônios para que os cidadãos vejam a cidade com olhos mais zelosos e plenos de valor.

No ano do bicentenário do município, Gisele relata as ações que a prefeitura tem realizado como o trabalho de educação patrimonial e a importante referência do museu da cidade, o Solar dos Mellos. Nesta entrevista para o Portal Divercidades ela fala também sobre o projeto do Memorial dos Direitos Humanos que será criado em Macaé nos próximos anos, com o lançamento de um livro e construção de um monumento.
 

Portal DiverCidades - Como foi a caminhada que te trouxe até o Solar dos Mellos?

Gisele Muniz - Minha caminhada até aqui é longa. Em 1989, havia um grupo em Macaé chamado GEMA, era o Grupo de Estudo da História Macaense. Um ano antes, entrei para a PUC Rio e vinha aos finais de semana para Macaé, onde encontrava com este grupo de estudo, que deu origem ao Instituto Histórico e Geográfico de Macaé. Parte desse grupo, há cerca de dez anos, estava aqui no Solar dos Mellos trabalhando. Eu era funcionária pública da área de educação e quando voltei para Macaé, há cerca de nove anos, comecei a pensar na minha transferência da educação para a cultura. Aqui no Solar encontrei pesquisadores que já conhecia como a Jane, a Rosali e essa turma toda que está aqui até hoje.

Portal DiverCidades - Seu cargo é comissionado. Você enfrentou alguma desconfiança quando ocupou este cargo, por ser irmã do prefeito?

Gisele MunizGisele Muniz - Dentro da lógica da administração pública, entendo que o servidor está apto a exercer uma função para a qual ele é competente. A minha história é de serviço público, tanto no Estado quanto no município. Já executava essa proposta que faço hoje em dia. O fato do Aluízio ser irmão da Gisele não me fez benesses. Nunca fiz uso disso e ele também não dialoga com esse tipo de coisa. Não me aproprio dessa condição e não trago essa relação afetiva para a prática pública. Ser irmã do Aluízio sempre me trouxe muita grandeza como ser irmã da Fabiane, como ser filha do Aluízio e da Izabela.

Portal DiverCidades - O fato de você ser professora contribuiu para que tivesse um olhar diferenciado sobre a educação patrimonial? Que espaço a educação patrimonial está ocupando hoje em Macaé?

Gisele Muniz - É o princípio. Quando você pede para o menino tratar de si, tratar do corpo, ele não vai adoecer. Então, se ele tem educação de qualidade, ele vai ter um trato com sua saúde. Quando ele trata bem a sua cidade e as relações que a compõem, ele tem satisfação de viver nesse ambiente.

Educação é o princípio de toda relação. É um momento significativo de reconhecimento do bem coletivo. A educação voltada para a coletividade é um reconhecimento do outro em qualquer instância. Então, existe uma preocupação voltada para a área pela qual me responsabilizo no sentido de buscar uma gestão participativa. Nós não tomamos uma iniciativa aqui, sem consultar a Fundação Macaé de Cultura. Acho que é assim que tem que ser. Nesse momento, é muito importante nos apropriarmos da cidade, via educação patrimonial, via conhecimento das próprias raízes e entender o bem coletivo. Saber que o coletivo pode ter uma ação mais efetiva na sociedade. Dessa forma, você cuida menos do seu cargo, da sua rua, da sua casa e verifica mais a praça e a cidade se compondo para todo mundo.

Portal DiverCidades - Quais são os patrimônios históricos de Macaé?

Gisele Muniz - São muitos. Hoje, o nosso desafio é dar sentido e significado a esses patrimônios. E quem dá este sentido é o homem que reconhece a sua história. Se você lida com uma sociedade conhecedora de sua história, ela será a maior beneficiada.  Porque patrimônio por patrimônio, por edificação, vai passar aos olhos vazios de significado da sociedade.

Foto Cris Isidoro

Igreja de Sant'anna MacaéTemos a Igreja de Sant’Anna que é um marco e precisamos ver o sentido dela estar no alto de um morro. Precisamos reconhecer a importância das irmandades como as grandes responsáveis pela vitalidade deste patrimônio. Um patrimônio que não é só histórico, mas que tem toda uma referência do catolicismo no município de Macaé. Tem a referência principalmente do povoamento. Precisamos reconhecer as bandas centenárias, o hospital São João Batista, o forte Marechal Hermes e o Paço Municipal, que é mais contemporâneo.

Cada tempo histórico gerou um patrimônio edificado. Cabe ao poder público dar sentido e cabe à sociedade reconhecer e proteger esse sentido. Se não tivermos uma ação mútua entre cidadão e o poder público, o patrimônio vai virar bem edificado e não é isso que a gente quer.

Portal DiverCidades - O que está sendo feito no sentido de dar significado aos patrimônios de Macaé?

Gisele Muniz - Patrimônio é processo. É algo que você projeta e programa. Temos um trabalho que coordenamos por meio da educação patrimonial. Recebemos visitas agendadas de segunda a sexta-feira e temos o encontro com o professor no projeto que se chama “Professor investigador”, três vezes por ano. Este ano nós trouxemos dois grandes pesquisadores da história local. Um falou da escravidão e o outro falou sobre a população indígena.

Quando esses professores vêm aqui, eles redescobrem e fortalecem um conhecimento e voltam para a sala de aula mais fortalecidos. Também temos a ação da pesquisa diária que funciona no Solar dos Mellos. Temos o projeto “Lugares de memória” que estamos botando muita fé. Acreditamos, por meio desse projeto, que é possível ir à Igreja de Sant’Anna identificar uma documentação e levar isso para o conhecimento do pesquisador e da população. Por meio do “Lugares de memória” vamos passar reconhecendo, identificando toda a documentação e acervo desses lugares.

Pelo projeto teremos condições de receber visitação e também de valorizar o acervo e, principalmente, de zelar pelo patrimônio. Nós só conseguimos isso com o apoio da secretaria de administração que nos favoreceu com o trabalho de cinco estagiários das áreas de ciências sociais e humanas. Com eles é que contamos para fazer o trabalho de identificação, coordenado pelas pesquisadoras Alice e Juliane. Nesse trabalho, nós tratamos a documentação e identificamos seu potencial histórico. Ao evidenciar o potencial histórico, tentamos criar o lugar de memória.

Foto Guga Malheiros

sOLAR DOS MELLOSConfesso que a Igreja de Sant’Anna já está apta a receber esse projeto. Já entendemos quem é Sant’Anna no contexto tridimensional, histórico e documental. Temos também as Sociedades Nova Aurora e Lyra dos Conspiradores e o Hospital São João Batista, que estão recebendo o “Lugares de memória”. Posteriormente, faremos isso em outras instâncias. Faz parte deste projeto ter um referencial de uma instituição coberta por pesquisadores e historiadores. Então, quem quiser visitar um desses lugares de memória deve se dirigir ao Solar dos Mellos para agendar visitas.

Já conseguimos descobrir algumas coisas por meio deste projeto. A irmandade de Sant’Anna está apta a estabelecer parceria com o Hospital São João Batista. A gente vê, pelos documentos, que nas festas de 29 de julho, as bandas eram muito chamadas. Então tem uma rede entre essas instituições, todas elas do final do século XIX. Dá para ver que a cidade estava dialogando por mais que as instituições estivessem em espaços públicos tão diversos. Na documentação, uma sempre cita a outra. A documentação conta sobre a alforria de escravos, entre outras coisas.

Portal DiverCidades - No ano do bicentenário, muitas atenções se voltaram para a história da cidade, para o patrimônio, os monumentos, etc. Como está o estado de conservação dos patrimônios de Macaé?

Gisele Muniz - Não dá para falarmos da história de Macaé sem falarmos de uma cultura nacional. Macaé é reflexo dessa cultura e a gente precisa entender que a cada monumento nosso foi dado um valor significativo de uma época. O relógio que está na Rua da Praia (Avenida Presidente Sodré) foi um relógio construído na década de 1960. Estamos estudando porque este relógio está tão machucado, ferido e pichado. Nós descobrimos que este objeto foi construído pelo Rotary Clube. A gente precisa conhecer esse tipo de informação. Os rotarianos naquela época se reuniram para presentear Macaé. Criaram um monumento para isso. Os monumentos falam de uma determinada época. Quem não pertence e não é filho dessa época precisa respeitar e dialogar e reportar certo valor a esse contexto que já não é mais o nosso.

Os espaços públicos precisam ser mais cuidados, os monumentos mais ainda. O nosso desafio, hoje, passa por três grandes praças: Veríssimo de Mello, Washington Luis e Luiz Reid. A Selimp (Secretaria de Limpeza Pública), que está conosco desde o início do ano, já  higienizou o obelisco na Praça Veríssimo de Melo que estava sem brilho. Recolocamos a letra A no obelisco e começamos a dizer para o usuário da praça que ele deveria ser o maior cuidador do monumento. Foi um cidadão que nos procurou para dizer que o monumento precisava de mais cuidado. Há que existir mais parceria entre governantes, dirigentes e cidadãos. Porque todos nós somos cidadãos.

Acabamos de fotografar todos os monumentos dessas três praças e ficamos muito tristes com o que achamos. Encontramos desleixo, descuido, falta de significado e muita pichação. Vamos higienizar, mas o custo não é barato. Eu conto com esses meninos que vem aqui no Solar dos Mellos de segunda a sexta-feira para que façam as microrrevoluções em suas casas e em suas famílias, dando o retorno para nós.

Portal DiverCidades - Nesses nove meses da nova gestão municipal, que ações importantes já foram feitas na área de acervo e patrimônio histórico de Macaé? 

Foto Ana Chaffin

Concerto dos 140 anos da Banda Nova Aurora de MAcaéGisele Muniz - Fundamentalmente a educação patrimonial. Por meio dela é que você pode ressuscitar as bandas. Quando a banda vai à Praça é o maior processo de cuidado, zelo e representatividade. A praça não é algo que tem apenas um espaço belo, é um lugar de democracia. Ela tem um sentido enorme. Desde 1º de janeiro estamos evidenciando o poder da praça. Exemplo disso aconteceu antes do discurso de posse do prefeito, quando nós pedimos licença para falar da Praça Veríssimo de Mello. E que há 100 anos havia um grupo ali contando a mesma história.

Pela educação patrimonial vamos evidenciar o poder das bandas, algo que tem um valor fundamental para a nossa história. É muito bonito reconhecer que, em junho, o maestro Helinho fez um concerto de aniversário da Nova Aurora e tinha gente pendurada na grade. Eu estou com 40 anos e fui ver isso só agora. Vi menino e velho pendurados na grade para ver a banda. Aquilo foi a coisa mais linda.

Em junho deste ano, demos ao Ivan Lins, na ocasião do show em comemoração ao aniversário da cidade, uma foto de quando ele esteve aqui em 1974 e ele disse assim — Vocês têm memória? Vocês guardam documentação? Nós dissemos que sim. O Ivan Lins foi convidado porque ele esteve no aniversário da cidade daquele ano (1974). Na época,  o prefeito Antônio Benjamim o convidou para as festas de julho e o Ivan Lins fez um show no Ypiranga Futebol Clube. Então, a cidade está revivendo seus arquivos. A cidade está batendo aqui no Solar dos Mellos e entregando seus documentos e pedindo para que nós façamos alguma coisa com essa documentação. E, nós fizemos o livro de 200 imagens sobre a história de Macaé e mais outras que estavam aqui, mas que estavam também na casa do cidadão.

Quando o Sávio, diretor administrativo do Hospital São João Batista, me convida para uma reunião e diz que precisa da história para poder buscar maior responsabilidade e zelo do cidadão pelo hospital público, nós nos olhamos e vimos que cada um tem um sonho. Ele com um desafio enorme de trazer maior qualidade de vida para a população e eu também tinha um sonho, o de ter uma cidade que reconhecesse seus arquivos, sua memória. Isso, para mim, era grande. E a gente entendeu poderia trazer o Hospital São João Batista para a história contemporânea da cidade. O caminho de uma cidade mais conhecedora de suas raízes não é a busca da identidade, tenho certeza disso.

Um exemplo disso é o que o Gianini fez com o tema da revista DiverCidades, que e é uma revista que está sendo muito bem lida e eu falo muito que é o canal que a gente tem para contar as nossas histórias. Então, onde houver a possibilidade de contarmos um pouco das nossas referências para essa cidade diversa, faremos. Acreditamos nas referências construídas coletivamente. Na multiplicidade, na diversidade, que é hoje a maior grandeza desse município e também sua maior complexidade. Então, acho que acabou aquela época em que Macaé se escondeu na década de 1970 e que o cidadão se recolheu porque estavam chegando imigrantes, transatlânticos e homens de outros mares. Acabou esse período porque precisamos nos entender na diversidade. Que baianos, sergipanos, noruegueses saibam que eles fazem parte da nossa cidade e da nossa história. A maior grandeza da cidade está aí.

Os escritos do professor Antonio Alvarez Parada são muito bonitos. Numa das últimas cartas dele, ele diz assim — Juntei, guardei, acumulei muita coisa. Acumulei muitas histórias, está na hora e no momento da cidade se apropriar dessa tarefa. Acho que está no momento mais do que urgente do macaense e do cidadão dessa cidade se incumbir dessa tarefa. Só assim vamos saber que não vivemos numa costa do petróleo e que não vivemos exclusivamente do mar. A gente vive de tantas coisas. Vejo que tem gente que vive de cultura. Não convenhamos viver só do aporte econômico apenas, porque ele é muito cruel. Ele dá a possibilidade de vivermos muito fechados nos nossos guetos, nossos condomínios e shopping Center e a praça vai ser um ícone só em uma época do ano. Que voltemos a usar a praça, o parquinho, etc.

Portal DiverCidades - Qual é a sua avaliação sobre os principais desafios na área de patrimônio histórico de Macaé?

Reprodução de parte da fotografia da Coleção OMM Observatótio da Memória Macaense publicada no livro "Macaé - Imagens do Século"

transeuntes da estação ferroviária de Macaé na década de 1910Gisele Muniz - O desafio número um é cuidar daquilo que está hoje sob a nossa guarda. São os patrimônios que estão aí e que a gente precisa cuidar e aportar valor, e isso é complexo. É preciso ter um diálogo com a sociedade para que cada cidadão traga a sua história coletiva para a cidade. Nosso país é conhecido por ter muita documentação e acervo na casa das pessoas. Nós temos o desafio de contar a história dos ferroviários. A cidade é ferroviária. Tem muita gente em Macaé que é filho da primeira ou segunda geração de ferroviários. Assim como a gente conseguiu retomar a fotografia, vamos tentar identificar aquilo que é coletivo para aquilo que é de todos.

O segundo grande desafio é contagiar a cidade com essas histórias e fazer com que aquela história que está lá no baú seja trazida para o Solar dos Mellos, se isso for coletivo. É tão bonito quando a gente diz que é parte da história. Tem uma frase que eu aprendi muito pequena que diz assim — Eu não sabia que a minha história é mais bonita que a do Robson Crusoé. Essa frase é do Carlos Drummond de Andrade. Fiquei apaixonada por essa frase e queria saber o que o Carlos Drummond de Andrade quis dizer com isso. E aí eu fui cair na universidade e descobri que a nossa história pode ser escrita por nós e reescrita por nós, que é o mais bonito. Que a história é uma ciência que se recria o tempo inteiro, mas só se recria quando a sociedade está apta a isso.

Portal DiverCidades - O que a prefeitura está prevendo para os próximos anos? Há alguma novidade na criação de espaços ou um projeto novo?

desenho do Motta CoqueiroReprodução da ilustração de Marcelo Vitiello publicada no livro "Relatos e personagens na história de Macaé"

 

Gisele Muniz - Posso falar do que o Aluízio (prefeito) já andou adiantando. Temos um projeto sobre direitos humanos. A praga  do Motta Coqueiro, que disse que no final do século XIX que vamos viver 100 anos de atraso, ficou no universo mental da sociedade. E eu, particularmente, fui estudar os 100 anos após a morte do Motta Coqueiro e vi tanta coisa acontecendo, como o trem, a luz elétrica chegando em 1820. No decorrer da praga tinha muita coisa acontecendo. Tenho vontade de dizer pra ele que ele foi danado, mas não sabia que nesses 100 anos iria chegar a luz e o trem. Dizer para a sociedade que a gente não quer quebrar a praga e nem o mito, mas existe muita coisa que aconteceu. Macaé é uma cidade muito solidária. Os registros da década de 60 apontaram Macaé como uma cidade mais pitoresca e mais hospitaleira.

Peço que essa gestão do Aluízio nos dê condição de fazer o memorial dos direitos humanos, onde o vulto do Motta Coqueiro possa ser banido das nossas mentalidades e da nossa prática. Um memorial para que a gente possa reconhecer quem foram os ferroviários, os pescadores, as rendeiras, os agricultores. Eu venho de uma linha historiográfica e de pesquisa que aponta muito mais para o coletivo do que para os guetos. Esse memorial aporta a construção de um livro com histórias remotas a contemporâneas que está sob o cuidado do jornalista Carlos Marchi, e construção de um monumento e outras coisas. Tem proposta de uma edificação.

Portal DiverCidades – Quais são as atividades realizadas no Solar dos Mellos?

Gisele Muniz - De segunda a sexta-feira das 8h30 às 17h está aberto à pesquisa. Esse ano foi movimentado por causa dos 200 anos e aproveitamos para dizer às pessoas que visitaram o Solar dos Mellos par voltar aqui depois. E as crianças começaram a voltar em grupos ou sozinhas. Porque elas viram que aqui iam encontrar algo que atendesse à curiosidade delas e eu acredito muito na pesquisa enquanto produção do conhecimento autônomo. O Solar hoje é local de pesquisa que proporciona entretenimento cultural. Aos sábados temos a cultura de quintal que privilegia uma ação no quintal que pode ser uma exposição, uma brincadeira com peteca, pipa e bambolê, etc. Uma atividade para que nossos filhos se apropriem desse espaço.  Trimestralmente, temos o professor pesquisador e há exposições periódicas.

Portal DiverCidades - Conte sobre a história da adega do Solar dos Mellos.

Foto Rui Porto Filho

Solar dos Mellos - museu de MacaéGisele Muniz -  Essa casa é um chalé. O Bento de Araújo foi o coronel que construiu essa casa. A gente sabe que o Bento pegou essa casa num magazine francês. Ele olhou uma revista e disse que queria fazer uma casa igual. No final do século XIX, a nossa maior referência era a França. Mas, aí a gente fica olhando com os olhos da contemporaneidade e pensa que chalé é algo que reporta neve e faz com que a neve não acumule e caia. Nós contamos essa história para os meninos e eles começam a entender o pé direito da casa. A gente começa a explicar para eles como era trocar uma lâmpada numa casa como essa e eles começam a entender que viver numa casa assim era algo diferente. A gente se reporta para o tempo do Cesar Mello e do Bento Araújo e aí os meninos vão se voltando para uma história. Eles olham para a fechadura, olham para os vitrôs, caminham na madeira e ficam observando tudo. A gente fala para eles passarem na sala 2 do Solar dos Mellos e escutar o barulho que o caminhar faz na madeira e aí a gente conta para eles sobre a adega e a coisa começa a mudar. Muitos nem sabem o que é uma adega. E quando a gente diz que o Cesar Mello dizia assim ó — Ao botar a mão na parede, o vinho fica em temperatura ambiente. E há uns seis, oito anos atrás até eu estava encantada com essa adega. Eu desci lá com a fotógrafa Cláudia Barreto e ela fez um giro de 306º com essa foto. Nós ficamos encantadas. A gente explica porque o banheiro ficava lá fora e diz que a geração do Cesar Mello estava pouco preocupada  em ter mais privacidade, como temos hoje. Então o banheiro ficava lá atrás. E eles começam a compreender que há uma diferença de tempo histórico. Daí, eles começam a aportar valor e sentido a essa casa.

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