Notícias e Variedades de Macaé
Início » Vida » Comportamento » A verve da juventude empreendedora

A verve da juventude empreendedora

qua, 27/04/2016 - 10:31 -- Leila Pinho
Créditos: 
Fotos: Alle Tavares
professor de inglês American Insigth

Para uma parte da turma que está entre os 15 e 29 anos*, construir carreira em grande empresa ou alcançar a estabilidade no serviço público passa bem longe do planejamento. Nada de ser empregado e seguir o caminho mais tradicional. Os olhos dessa juventude estão brilhando mesmo, pelo empreendedorismo.  Gente jovem anda descobrindo que empreender pode ser um desafio muito estimulante, capaz de desenvolver competências e abrir perspectivas de crescimento antes não imaginadas.

O macaense Thiago Lopes, de apenas 25 anos, faz parte deste grupo. Aos 22 anos, ele criou uma escola de inglês. Em 2015, a escola ficou entre os três finalistas na categoria educação do Prêmio de Competitividade Para Micro e Pequenas Empresas, concorrendo com 4.558 empresas de todo o Estado do Rio de Janeiro. Thiago começou a dar aula de inglês aos 16 anos e, aos 18, já falava quatro línguas. Quando trabalhava como professor em uma escola, queria implantar alguns projetos e encontrava resistência de seus superiores. “Então, comecei a pensar que eu precisava dar uma chance a mim mesmo. Não consigo mais viver no emprego tradicional. Eu nasci para empreender e faço disso o meu life style”, fala. Além de atuar na área de educação, ele é diretor de uma empresa de consultoria.

michele e bruna com laços coloridosPara as amigas Bruna Pacheco Rabelo, de 21 anos, e Michelle Loureiro de Jesus Marçal, também de 21, o mundo dos negócios foi surgindo aos poucos e se apresentando como oportunidade na medida em que elas conquistavam mais clientes. Em março de 2014, Michelle começou a confeccionar laços infantis para vender. Como muitas mães se interessaram, a jovem acabou abrindo uma página no Facebook para facilitar a comunicação com as clientes e depois criou um ateliê, num espaço cedido na casa de sua avó. A demanda cresceu de tal forma, que Michelle e Bruna tiveram que abrir um ponto comercial e largar a faculdade de engenharia química, para se dedicar mais à empresa.

Hoje, Michelle fica com a parte da produção e Bruna se dedica à administração. “Com o tempo, a gente foi vendo que o que fazíamos era um negócio. No início, rolou uma insegurança em abrir o ponto, por causa da crise. Tem cerca de 5 meses que abrimos a loja, mas já vendemos laços há muito tempo”, comenta Michelle.

Já no caso de Monique Martins Benedetto, de 27 anos, há influências familiares e uma aptidão para gerir e inovar. O pai dela é comerciante, dono de uma loja de ferragens na capital. Lá, Monique fazia estágio e buscava implantar processos novos para aprimorar os serviços. “Eu gosto da novidade, de fazer diferente. Isso me chama atenção”, fala.

Ela veio do Rio de Janeiro para Macaé, no fim de 2013, quando o marido passou em um concurso da Petrobras. Na ocasião, Monique já tinha em mente que iria abrir um negócio e não considerava a busca de emprego como alternativa. Ela só não sabia qual seria o ramo. A certeza chegou depois de uma viagem de lua de mel para a Itália, quando ela tomou os gelatos mais saborosos que já provou. “Fiquei uma semana em São Paulo (em março de 2014) fazendo cursos de sorvetes e picolés, gostei da diversidade de sabores e maneiras de fazer. E em setembro, comecei a vender e divulgar meus picolés artesanais”, conta Monique. Atualmente, a empreendedora vende os picolés por encomenda e em alguns estabelecimentos da cidade.

Entusiasmo e muita disposição

Thiago se considera um multitarefa, gosta de aprender coisas novas todos os dias e se dedica para atingir seus objetivos. Ele tem aquela verve da juventude e bastante energia para realizar. A definição dele para empreendedorismo vai muito além de criar empresas. “É uma atitude. O empreendedor inspira e impacta pessoas, tem visão de onde quer chegar e não abre mão dos valores”, opina Thiago. O motorzinho que o estimula está nos desafios e na possibilidade de deixar um legado para as próximas gerações.

vandré guimarãesPara Monique também não falta disposição. Trabalhando sozinha, ela produz os picolés artesanais, atende encomendas, faz a divulgação do produto, participa de eventos, faz reuniões para parcerias e ainda reserva tempo para criar novos sabores. “Eu adoro o que faço. Trabalhar sozinha é cansativo, mas eu gosto do contato com o público e de saber de todas as etapas de produção”, comenta Monique.

Para o Ex-secretário de Desenvolvimento Econômico Tecnológico e Turismo de Macaé, Vandré de Araújo Guimarães, (até o fechamento desta edição, Vandré ainda ocupava o cargo de secretário) a maior parte da juventude que se envolve nessa área, empreende por oportunidade e não por necessidade. “O jovem tem um comportamento empreendedor na vida dele, ele não empreende só no negócio que vai abrir. Por exemplo, tem funcionário que tem perfil empreendedor, que é aquela pessoa capaz de transpor obstáculos com mais facilidade, viabilizando soluções”, afirma Vandré.

Vencendo as barreiras

Ao contrário de outros países, no Brasil não existe uma cultura empreendedora e, nas escolas e universidades, os estudantes raramente têm o tema como disciplina. Thiago trancou a faculdade de engenharia de produção no 8º período por acreditar que o ensino não estava acrescentando muito aos projetos dele.

“Eu não sei se volto mais. A faculdade tem o objetivo, na maioria das vezes, de direcionar para o mercado e conseguir um emprego, e o empreendedorismo é para gerar empregos e não se tornar empregado. Hoje, como não tenho interesse em me posicionar no mercado de trabalho, sinto que falta um propósito para fazer faculdade”, diz Thiago que usa outros métodos para adquirir conhecimento, como o hábito de ler livros, frequentemente.

Se não existe uma cultura de aprendizado e se muitas vezes, na própria família do jovem, prevalece a ideia de que abrir uma empresa é muito arriscado, que estímulos eles encontram para empreender?

A crença no potencial de crescimento pode ser uma das respostas. Quando Bruna e Michelle viram as vendas dos laços aumentarem e cada vez mais pessoas se interessarem pelo produto, sentiram que podiam ir mais longe. “Tinha gente de fora de Macaé fazendo encomenda, quando ainda estávamos no ateliê”, lembra Michelle. “É muito legal ver o que a gente já fez, na idade que temos. Já percebemos que para empreender tem que ter feeling e jogo de cintura”, diz Bruna.

A realidade mostra que os jovens ainda têm muito espaço para conquistar, conforme revelam os dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). De todos os Microempreendedores Individuais (Mei) registrados no Brasil, em 2015, apenas 25,4% têm entre 18 e 29 anos. E, se comparado com o ano de 2013, a fatia dos jovens no Mei, diminuiu. Em 2013, eram 26%.

monique fazendo picolé benedetto picoleteriaCom pouca experiência de vida e menos ainda no mundo dos negócios, os jovens enfrentam algumas dificuldades comuns. Quando Monique abriu a picoleteria, teve dúvidas se ia dar certo. Mas, bem no início, ela teve bons resultados e a aceitação do produto, pelo público, foi positiva. “Hoje em dia, a crise assusta um pouco. Por isso, tenho que trabalhar mais. Outra dificuldade é pelo fato de trabalhar sozinha, para expandir a produção vou precisar de mais uma pessoa”, diz Monique.

As amigas e empreendedoras Bruna e Michelle passaram por algumas situações em que a pouca idade as colocava em situação desfavorável. “Quando a gente vai negociar algo com fornecedor, às vezes, ele acha que somos inexperientes e fica querendo nos enrolar. Querendo ou não, somos inexperientes. Mas já aprendemos muitas coisas”, diz Bruna.

O mesmo também ocorreu com Thiago. Ele notava que algumas pessoas ao vê-lo, num julgamento preliminar, se questionavam se ele era confiável. Rapidamente, o empreendedor descobriu a forma de quebrar esse preconceito. “Quando você abre a boca e se for bem fundado, você reverte o quadro em 10 segundos, mas você não pode ser superficial no seu conhecimento e resultados, tem que ser consistente. Então, acredito que não é a idade que dá credibilidade e sim a profundidade da sua competência”, diz Thiago.

Quando descobrem que podem crescer bem mais do que imaginavam, os jovens geralmente esbarram no entrave do investimento. Geralmente, eles têm pouco ou nenhum capital e precisam de recursos externos para alavancar. Segundo explica Vandré Guimarães, para fomentar o empreendedorismo é necessário dar condições para o crescimento, como por exemplo, por meio do Programa de Microcrédito Produtivo Orientado (PMPO), que existe em Macaé. “Nós oferecemos o microcrédito, com juros subsidiado a 0,25% ao mês. Esse programa oferece um convênio com a orientação do Sebrae, com consultores altamente gabaritados que focam na longevidade do negócio do empreendedor. É um financiamento visando que o negócio prospere”, explica o secretário.

Para crescer, Thiago contou com o apoio de um investidor que o permitiu aumentar a capacidade de atender novos alunos.  Até o fim do ano passado, a escola funcionava num espaço de 70 m2, onde permaneceu por 2 anos, e atualmente ocupa 330 m2 em novo lugar.

Pelo que os olhos deles brilham?

Quando essa pergunta foi feita aos quatro empreendedores entrevistados nesta matéria, todos falaram com emoção e os olhos brilharam, mesmo, ao contar sobre aquilo que os motiva a continuar. Thiago vibra pelos desafios. “Todo dia é um desafio novo, todo dia é um imposto novo pra aprender, todo dia tem procedimento novo para fazer, todo dia tem uma inovação, uma metodologia pra implantar. Gosto muito disso, sou viciado nisso”, diz.

Para Bruna e Michelle, o reconhecimento do público é a recompensa motivadora. “O retorno que a gente tem dos clientes é muito bacana. Eles tiram foto dos bebês e mandam pra gente ver. Tem uma família que, na época que a gente estava no ateliê, levava a nenenzinha de dois meses pra escolher os laços. E toda vez que o pai desembarcava, vinha a família toda pra a loja. Daí a criança voltou, já estava começando a ficar durinha, voltou de novo e já estava sentando, e voltou mais uma vez, já estava andando. A gente acompanhou o crescimento dela”, conta com alegria, Bruna.

Monique também encontra na interação com o público, o melhor estímulo. “O feedback é maravilhoso. Recebo ligações de pessoas falando que experimentaram o picolé e acharam maravilhoso, aí perguntam onde eu trabalho e outras coisas. Isso não tem preço, é o melhor retorno”, fala Monique Benedetto.

* Segundo estabelece o Estatuto da Juventude (Lei 12.852), são considerados jovens, pessoas com idade entre 15 e 29 anos.

Comentar

Seu comentário será liberado pelo administrador. Informe-se sobre as regras de moderação de comentários no Termo de uso.
CAPTCHA
Resolva a soma abaixo por questões de segurança
1 + 19 =
Solve this simple math problem and enter the result. E.g. for 1+3, enter 4.