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Dona Mavi, a mestra que inspirou gerações de Macaé

qui, 24/09/2015 - 14:07 -- Luciene Rangel
Créditos: 
Alle Tavares
Dona Mavi e sua família

Quem estudou no Colégio Estadual Luiz Reid, no Ginásio Macaé, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé (Fafima) ou no Instituto Nossa Senhora da Glória (Castelo) entre os anos de 1964 a 1997, certamente compartilhou dos conhecimentos de português de Maria Victória de Souza Barcelos, eternizada nas lembranças de seus alunos como Mavi. A DiverCidades homenageia esta grande mestra, resgatando e registrando um pouco de sua história, contada através da família, de colegas de trabalho e de alunas que, de forma unânime, afirmaram ter sido ela o grande diferencial de suas vidas escolares.

Foto: arquivo pessoal de Dona Mavi

dona maviA figura poderosa, imponente, exigente e impecável de Mavi ainda povoa as lembranças daqueles que tiveram a grata oportunidade de convívio. Sempre de aparência elegante, com português perfeito na ponta da língua e nas lições, a quissamaense, nascida em 1935, teve trajetória profissional e familiar de sucesso, tendo presença marcante por onde passou. Hoje, aos 80 anos, Mavi leva uma vida reservada ao âmbito familiar, realidade ainda mais acentuada nos últimos dez anos, quando foi diagnosticada com demência progressiva, que se iniciou por afasia crônica progressiva e evoluiu com característica de demência fronto-temporal (complexo de Pick).

Presença decisiva

“Falar de Mavi é fazer uma retrospectiva da minha história influenciada por essa grande mestra, que delineou meus passos nesse cenário da Língua Portuguesa. Como mestra, suas atitudes fizeram-me acreditar que os desafios nos levam a lugares altos. Conseguiu mudar meu olhar. Já havia escolhido a área de exatas e depois de ela apresentar-me o encanto da linguagem fiz a escolha certa da minha profissão: professora de língua portuguesa. E comecei a dar aula no Colégio Estadual Luiz Reid tendo Mavi como bússola para orientar meus primeiros passos. Além de transmitir conhecimento, educava-nos com suas atitudes firmes e justas... Verdadeira educadora!”, declarou Eliana Vaz Coelho, ex-aluna e colega de profissão de Mavi. E ela acrescentou: “Até hoje colho os frutos das sementes lançadas por ela em meu caminhar”, emocionou-se.

elianaEliana foi aluna e colega de Mavi no Luiz Reid. Nos anos em que lecionou na Fafima, foi rendida por Mavi quando em licença-maternidade. E era para Eliana que a mestra encaminhava os alunos com necessidade de reforço em português.

Amizade e respeito

E Eliana não está só em sua gratidão a Mavi. Engrossando coro, Rosane da Costa Porto, que foi aluna no curso normal de 1964 a 1966 no Luiz Reid, enfatiza que, no início, houve um certo temor, vencido, rapidamente, pela competência nos ensinamentos.

“Em 64, cursava o primeiro ano do curso normal no Luiz Reid e português era dado por Mavi. No início foi difícil, pois ela tinha uma maneira muito particular de ensinar, mas, com o passar do tempo, percebemos que sua técnica era fabulosa e o temor deu lugar à gratidão”,  recorda-se Rosane, que fez prova para magistério do Estado do Rio, com o português sendo decisivo para a aprovação.

Rosane foi da primeira turma que fez, integralmente, o curso normal tendo Mavi como professora e destaca que, na época, um grupo de alunas, temendo a fama de Mavi de professora durona, exigente e que reprovava, optou por cursar o segundo grau em Barra de São João, enquanto ela adoecia toda vez em que era marcada uma prova.

“No segundo ano, o temor passou transformando-se em respeito. Com o tempo, a segurança foi crescendo e por fim ficamos amigas. Mavi era justa e ensinava muito bem. Não tínhamos livros. Era preciso anotar tudo.” E Rosane, motivada pelas boas lembranças, recordou-se da turma, mencionando algumas colegas, como Claudia Márcia Vasconcelos,  que seguiu os passos da mestra; Alcione Franco; Maria Clara Galiza; Ligia Maria Gomes Martins; Milmar Madureira; Jane Portugal; Lucian Zarour; Maria da Glória Esteves; Vera e Regina Célem.

Reconhecimento e importância

Nesta mesma época, também cursando o normal no Luiz Reid, esteve Mariza Schueler de Souza, que teve aulas com Mavi no segundo e no terceiro anos e afirma ter sido a mestra, com seus ensinamentos, decisiva no concurso de magistério.

rosane e gerlane“Minha turma passou a ter aulas de português com Mavi no segundo ano, o que foi uma mudança brusca. Ela era muito exigente. Sabia português como poucos e posso afirmar que o que sabemos da língua portuguesa é graças a ela. Quando concluímos o curso e fizemos o concurso para o magistério, isso em 1965, houve uma ressalva no Diário Oficial referente ao desempenho da nona região, pelo índice de aproveitamento em português, e isso graças a Mavi”, conta Mariza.

Mariza, saudosa, com uma cópia do convite de formatura e fotografias da turma em mãos, recordou-se de suas colegas, destacando Hélvia Maria Souza Silva, Magali Pereira Agostinho, Maria Amélia Guedes, Lúcia Maria Coelho, Thais Wyatt, Ana Luiza Queiroz Mattoso, Cleilce Paula Machado, Dulcília Pereira, Angela Frossard e Elizabeth Lacerda Santos.

Trajetória impecável

A primeira troca de olhares com Caio Barcelos, que acabou sendo seu marido, foi durante o casamento do “futuro” cunhado, em Quissamã, no ano de 1948. Após 15 anos de namoro, incluindo mudança para Campos em virtude dos estudos no Liceu de Humanidades, graduação em Letras Anglo-Germânicas no Rio, pela Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica em 1956 e retorno a Campos para atuação profissional, os jovens casaram-se em 1963. Logo, Mavi conseguiu transferência para Macaé, lecionando no Luiz Reid e iniciando sua trajetória impecável no magistério macaense, inclusive como sócia e docente do Ginásio Macaé, juntamente a José Carlos Cunha e outros colegas. dona mariza shueler

Há uma passagem na carreira de Mavi que poucas pessoas sabem. Por anos ela ministrou curso informal de português para empregados da Petrobras e estrangeiros que chegavam no município para atuar no mercado offshore.

Família unida

Da união com Caio nasceram Sávio, Vítor e Maria Cecília. Família sempre unida e harmoniosa, que frutificou nos netos Jéssica e Marina, filhas de Sávio e Cristiane; Ana Clara e João Vitor, filhos de Vítor. Isso sem falar no membro extra e de extrema importância para os Barcelos, Gracinha, que entrou na família há mais de 30 anos, passando de secretária a amiga de todas as horas.

“Minha mãe sempre foi exigente e perfeccionista em tudo o que fez. Não tenho dúvida que ela foi uma mulher à frente de seu tempo, moderna. Colocou os filhos para estudar fora, viajamos muito, nos mostrou oportunidades e caminhos. Ao mesmo tempo em que mostrava um universo de possibilidades, era protetora, cultivava momentos em família como as refeições sempre feitas com todos à mesa. Era a primeira a acordar e a última a dormir”, relata Cecília, que vem dedicando boa parte de seu tempo, nos últimos anos, aos cuidados dos pais, sobretudo da mãe.

Companheiro há quase 53 anos, Caio é enfático ao enaltecer as qualidades maternas, de esposa e profissionais de Mavi. “Como esposa, sempre foi muito companheira. Como mãe, muito dedicada e atenciosa. Como professora, era empenhada em fazer o melhor. Como empresária, atuando na São Cristóvão, fazia de tudo, da venda de passagens à contabilidade”, recorda-se ele, citando a empresa de transporte da família.

Ponto final

Quando Mavi decidiu encerrar, em definitivo, sua trajetória em sala de aula, lecionava no Castelo. Já estava aposentada de sua matrícula no estado desde 1985, mas mantinha-se na ativa.

Dividia seu tempo entre o magistério e uma nova paixão: a pecuária. Por toda a sua vida, o campo esteve presente. A família sempre teve fazenda e talvez essa tendência tenha sido adormecida por décadas para aflorar quando o fator tempo fosse mais farto. E foi a partir de sua aposentadoria que ela começou a participar de leilões de gado, a dedicar-se mais à fazenda de Quissamã, resgatando suas raízes, sua história.

Na reta final de sua carreira profissional, já tendo passado por suas mãos algumas centenas de alunos, ao longo de quatro décadas de magistério, talvez ela tenha encontrado uma de suas maiores admiradoras.

“Em 1997, era aluna de D. Mavi no Castelo. Estava no segundo ano quando ela anunciou que ia se aposentar. Àquela altura, sendo o segundo ano que já a tinha como professora, fiquei no mínimo triste, pois sabia que eu, minha turma e todas as futuras gerações deixaríamos de conviver com uma verdadeira mestra”, compartilhou Gerlane Mota de Araújo Benjamin, que confessou ter muitas lembranças do tempo de relacionamento com a professora de português que marcou sua vida.

“Como aluna do Castelo, cresci ouvindo histórias de D. Mavi, conhecia sua fama de professora exigente. Sempre fui boa aluna, mas ela abalou minha segurança quando tirei minha primeira nota baixa. Fiquei arrasada e ela percebeu. Como estímulo, me presenteou com uma gramática e disse que eu tinha potencial. Ela nos desafiava para que déssemos nosso melhor e foi assim que meu temor transformou-se em admiração e gratidão”, disse a ex-aluna, afirmando: “Agradeço, no mínimo. Sou o que sou porque tive a oportunidade de ter D. Mavi como mestra. Ela ensinou que tudo o que fazemos tem que ser feito com carinho e postura. Hoje,  entendo que o rigor era uma forma de nos desafiar. Como mãe, mulher, profissional e cidadã, muitas vezes me espelho nela, que foi e sempre será uma grande mestra”, finaliza Gerlane.
 

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