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Amizade a toda prova

qui, 21/07/2016 - 13:45 -- Alice Cordeiro
Créditos: 
Fotos: Alle Tavares
garotos jovens

Na era das redes sociais, é comum encontrar pessoas com seus perfis repletos de amigos. O Facebook, por exemplo, permite 5.000 amigos por conta. E, pode acreditar, tem gente que atinge essa marca. De acordo com pesquisadores da Universidade de Toronto, a internet ajuda a ter mais amigos dentro e fora da rede. No entanto, na maior parte dos casos, essas amizades surgem a partir de relações que se iniciaram na vida real. Assim, ela funciona como potencializadora de possíveis amizades.

Mas quantos são amigos verdadeiros? Amigo com quem se pode contar para todas as horas, até nos momentos mais difíceis? Segundo o  antropólogo inglês Robin Dunbar, da Universidade de Oxford, o ser humano tem a capacidade de manter uma rede de amizade composta por até 150 pessoas. Isso porque, para manter um vínculo de amizade, é necessário memorizar informações que serão acionadas quando houver interação entre as pessoas.

Desses 150 amigos, apenas 15 podem ser chamados de melhores amigos, e somente cinco classificam-se como amigos mais íntimos, aqueles que são procurados quando se tem um problema maior. De acordo com o estudo, essa classificação é  eterminada
a partir do tempo investido em cada relação. Quanto tempo você tem destinado aos seus amigos?

We play for Yuri

showFoto: arquivo pessoal

O estudante Yuri Lopez, de 21 anos, recebeu uma grande prova de amizade impulsionada pelas redes sociais. Em 2008, ele foi diagnosticado com Ceratocone, uma doença rara da córnea que o deixou com apenas 30% da visão. Em 2011, conheceu Vitor Gattei, 20 anos, ao estudar no Instituto Federal Fluminense (IFF). “Nessa época, eu já tinha feito duas cirurgias em cada olho para impedir que ficasse cego. Mas o tratamento deveria ser mantido, a cada seis meses, com lentes de contato especiais e um anel que segurava a córnea. Era muito doloroso e, muitas vezes, causava sangramentos. Meus amigos passaram por tudo isso comigo e ficavam sensibilizados”, explica Yuri.

Integrantes da banda de rock Blind Man’s Dogs, os amigos Vitor Gattei, Gabriel Bahia, Felipe Yamahata, Felipe Frota, Andrews Perecmanis e Caio Almeida, todos na faixa dos 20 anos, estavam prestes a fazer um show, quando souberam que o tratamento do amigo poderia ser interrompido se ele fizesse uma cirurgia que custava R$ 18 mil, cada olho.
“Criamos o ‘We Play For: Yuri Lopez’, um show beneficente com três bandas de rock, que tinha como intuito reverter o dinheiro arrecadado para a cirurgia. Lançamos um evento no Facebook e movimentamos muitos macaenses para a causa. Até quem não conhecia o Yuri participou e se comoveu”, destaca Vitor.

“Em fevereiro de 2015, reunimos mais de 400 pessoas e arrecadamos mais de R$ 10 mil. Com isso, o Yuri pôde fazer a cirurgia em um dos olhos, pois já tinha conseguido o restante entre seus familiares. Antes do Yuri, já pensávamos em realizar shows para ajudar instituições de caridade”, conta Vitor que, em março, realizou o “We Play For: Casa do Abraço”, quando arrecadou mais de R$ 7 mil para a  instituição. “A ideia é promover shows com bandas macaenses que variam entre  indie, rock e metal em prol de uma causa maior. Assim, as pessoas participam de um evento com alta qualidade musical e ficam ainda mais satisfeitas por saberem que estão ajudando alguém ou uma causa”, acredita FelipeYamahata.

“No início, eu não sabia o que eles estavam fazendo. Sabia apenas que queriam fazer um show com algumas bandas. Só depois que a marca estava criada e o evento divulgado nas redes sociais, descobri que era para minha cirurgia. Não coloquei muita fé, acheique iam umas 40 pessoas do nosso círculo de amizade. Nem mesmo no dia, consegui dimensionar o tamanho do evento. Só no dia seguinte, quando eles me entregaram a quantia, percebi que era real”, conta Yuri, emocionado.

“É sempre maravilhoso ajudar alguém. Mas conhecendo de perto, vendo o dia a dia, sabendo todas as dificuldades que a pessoa passa, de certa forma nos dá mais ânimo para ver o resultado e nos estimula a continuar o projeto ‘We Play For’”, confessa Vitor.

O trio: Marcelo, Alcebíades e Gualter

Foto: arquivo pessoal

marcello aguiar com a família

Amigos de longa data, Marcello de Carvalho Aguiar, Gualter Scheles Júnior e Alcebíades Azevedo passaram por inúmeros momentos de companheirismo e descontração. Isso não foi diferente depois que Marcello descobriu, aos 41 anos, um câncer no pâncreas. A dolorosa notícia, no entanto, não aplacou sua alegria. “Ele continuou o mesmo. Gostava de brincar, contar piadas, sair com os amigos e de longas conversas na mesa de um bar. Depois que descobriu a doença, a rotina dele não mudou, e sua alegria também não”, lembra Gualter. 

 

Gualter e Marcello se conheceram aos 13 anos através de um primo do Gualter. Na época, Marcello já tinha recebido o apelido que o acompanhara por toda a vida, “Bacalhau”, ou “Baca”, para os mais próximos. “O pai do Marcello era vascaíno e tinha um bar onde ele costumava brincar quando pequeno. O apelido inicialmente era para o pai, mas acabou pegando no filho”, conta Gualter, sorridente. Anos mais tarde, num carnaval em Paraty, Gualter apresentou o amigo a Alcebíades. O trio estava formado. A partir
daí, viajaram juntos todos os anos, por 13 anos, e sempre se encontravam  em Macaé, às quintas-feiras. 

Foto: arquivo pessoal

alcebíades azevedo

Macaenses, os amigos conviviam com a distância, pois Gualter e Alcebíades moravam no Rio e Bacalhau, em Macaé. “Sempre usamos o telefone e a redes sociais para facilitar nossa comunicação e manter a proximidade”, destaca.

“Em março de 2012, soubemos da doença do Marcello e sempre nos prontificamos a ajudar. Macaé não tinha o tratamento e ele precisou fazer tudo pelo Inca, no Rio de Janeiro. Passou então a ficar na casa do Alcebíades e depois ficou comigo uma temporada”, lembra Gualter. “Soubemos da doença pela esposa, Alessandra, pois o Marcello nunca tocou nesse assunto conosco. Por isso, continuávamos a viver normalmente, nos divertindo como sempre fizemos”, acrescenta Alcebíades.

Segundo Alessandra Rechdan da Fonseca, os amigos foram muito presentes e importantes no tratamento do marido, pois, além de darem todo suporte no Rio, estavam sempre juntos conversando sobre diversos assuntos, menos da doença. “Eu estava preocupada com a saúde dele e os outros amigos e familiares também, por isso era comum tocarmos no assunto. Os meninos demonstravam preocupação falando sobre outras coisas, o fazendo esquecer um pouco o momento que estava passando. Acredito que isso foi essencial para a recuperação dele durante as sessões de radio e quimioterapia, pois em nenhum momento, o Marcello sentiu os efeitos  colaterais do tratamento. Até o médico ficou surpreso”, revela.

Prova da disposição de Marcello foram as duas viagens que fez com os amigos. A primeira foi para São Paulo, quando o trio curtiu um show  especial da banda Legião Urbana, tendo Wagner Moura como vocalista.  “Ficamos três dias na cidade e curtimos como se não houvesse a doença”,  lembra Gualter. A segunda foi para Gramado, desta vez apenas com o  Alcebíades. “Eram os últimos momentos do Marcello e queríamos aproveitar ao máximo nossa amizade”, conta.

“Dessa experiência, fiquei com uma lição muito positiva, pois em momento algum o Marcello  aparentava tristeza. Diante da quase certeza da morte, ele encarava tudo com muita naturalidade e bom humor. Tento praticar seu exemplo diariamente, não me preocupando com coisas pequenas. Certamente, hoje estou melhor do que antes graças à nossa amizade”, confessa  Gualter. gualter

“Nossa amizade sempre foi à distância, entre Rio e Macaé, e nos víamos esporadicamente. Por isso, tento pensar que vamos nos encontrar a qualquer momento, como realmente irá acontecer”, revela Alcebíades, acrescentando que sempre se pega pensando e conversando com o amigo, que faleceu em novembro de 2013.

“Não é fácil encontrar amigos assim. Quando descobriram a doença, eles convocaram todos os demais amigos a visitarem o Marcello. Estavam sempre comigo  perguntando se precisava de algo, mas com ele era só positividade e  assuntos que o faziam esquecer a doença. O diagnóstico inicial foi de apenas 6 meses de vida, mas o Marcello resistiu por 2 anos e 4 meses. Acredito que os amigos foram fundamentais para isso”, finaliza Alessandra.
 

 

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