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Minha carne é de carnaval, meu coração é igual

sex, 09/02/2018 - 11:40 -- Gláucia Pinheiro
Categoria: 
amor no carnaval

Carnaval, festa da carne. Assim entrou para a história a festa de Baco, regada a vinhos, orgias e liberdades. No convite do rei a cair dentro da folia, o imperativo é o prazer. Ao beber sem mágoa, onde se pensa que cachaça é água, uma trégua para censura, e o porre é de felicidade. No repique dos tamborins ou no choro da cuíca, o corpo estremece, as pernas desobedecem e sentimos a sola do pé coçar. O coração a batucar, na marcação do surdo, no ritmo da bateria. Arrepio na espinha. E deixa que digam, quem pensem e que falem, cá pra nós, carnaval é samba! Já dizia o mestre baiano que quem dele não gosta bom sujeito não é. E nas três noites em que o sol brilha nos holofotes a refletir purpurinas, seja na rua vadia, em meio a serpentinas e confetes do chão encerado do salão ou desfilando na avenida, não só a carne é de carnaval. O coração é igual.

O carnaval, festa do samba. E por que não do amor? Na sua boemia, com seus vagabundos e vedetes, seus malandros e mulatas, o amor é cantado em verso e prosa. Em poesia. E desperta a fantasia. Entre bailarinas e passistas, melindrosas e piratas, a fantasia adormecida sai do armário e ganha cor a passear, sem pudor, pelas ruas e avenidas. Três dias onde o sonho e o desejo se misturam a euforia.  Quando se brinca, a dançar de pés no chão e braços erguidos, a alegria faz um convite ao amor. E nas noites quentes de fevereiro, onde a realidade adormece num breve intervalo, na fantasia do encontro, sonha-se com o amor de carnaval. Há amor no carnaval! Amores fugazes, amores intensos, amores sem expectativas. Amores trocados, amores marcados, amores suados.  Amores que se guardam pra quando o carnaval chegar. E nesses três dias, onde parece que a tristeza foi “desinventada”, a única lágrima a rolar é a que escorre, desenhada, da face do pierrô, no seu encontro mascarado com a colombina no meio da multidão.

O samba embala o amor. O amor dá samba e acaba em samba. O coração que samba ama sem querer. Se todo mundo sambasse, e amasse, seria mais fácil viver. Mas o amor de carnaval se vai, no gole de cerveja, no pedaço do samba esquecido na rua, na boemia, na embriaguez, no resto de poesia.

E assim, quando a luz se apaga trazendo o raiar do dia, quando é preciso despir-se da fantasia para guardá-la no barracão, a ilusão desaparece nas cinzas da quarta-feira, mesmo não querendo que se acabe o carnaval. Mas não faz mal, não será o fim da batucada, outras madrugadas trarão um novo amor, porque, meu bem, tem mais samba e carnaval ano que vem.

Eu sou Gláucia Pinheiro, psicanalista
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